|
Por Marta de Sousa Costa
>>> Mania de conflito
Em Reportagem Especial, no domingo 28 de agosto, o jornal Zero
Hora, RS, chamou a atenção para uma característica gaúcha que acabou
se transformando em entrave para o desenvolvimento. A reportagem questionava
se o passado de revoluções seria o responsável pela tendência do gaúcho
ao conflito, como método para resolver as diferenças (modernamente,
a negociação é considerada mais promissora, por criar parceiros, em
lugar de vencedores e perdedores).
“Tentativas de reforma e modernização”, nas palavras do repórter Itamar
Melo, são travadas pela “incapacidade de criar consenso em torno de
projetos fundamentais”. Como exemplo, ele cita reformas necessárias,
barradas por determinados sindicatos, e “casos prosaicos”, criados por
diferentes ativistas. Quem não conhece alguns?
Na política, agora segundo a cientista política Maria Isabel Noll, “projetos
com pontos positivos e negativos são rejeitados como um todo, porque
não há negociação”, diferente do que ocorre em outros Estados, onde
“situação e oposição se unem em defesa de pontos fundamentais”. No Rio
Grande, o “imobilismo” é incentivado pela força das corporações e grupos
de interesse, que se unem para impedir quaisquer mudanças. Sem que as
mudanças propostas encontrem aceitação, no Estado, nos municípios, nas
instituições, tudo fica travado.
A cada nova idéia, mil vozes se erguem, gritando “Sou contra”, na maioria
das vezes sem sequer saber bem do que se trata. Pelo costume de contrariar,
algumas vezes; pelo despeito de não ser o dono da idéia, em outras _
e aqui a opinião já é pessoal. Mas o pior é que o projeto promissor
esmorece, volta pra baixo da pilha, em lugar de sofrer as alterações
necessárias e se transformar em realidade, para beneficiar a quem de
direito.
É mais cômodo ser contra qualquer novidade. Imagine como ficam os outros,
quando a idéia de alguém ameaça dar certo. Por isso os grupos se fecham,
rejeitando as razões daqueles tidos como oposição. E quando alguém consegue
romper o círculo, bracejando para alcançar outra margem, vozes e mãos
tentam impedi-lo de avançar, colocando impedimentos e puxando-o para
trás e para baixo _como fazem os caranguejos, mais preocupados em impedir
o avanço dos outros que em providenciar a sua própria salvação.
A reportagem, fruto de pesquisa, apresentando inúmeros exemplos que
comprovam a sua veracidade, coloca o dedo na ferida do comportamento
gaúcho, fazendo-a sangrar. Considerando que “roupa suja se lava em casa”,
talvez fosse mais inteligente não comentá-la. Acontece que, infelizmente,
notícias diariamente divulgadas nos levam a recear que essa situação,
exemplo da nossa mesquinha humanidade, se repita por esse Brasil afora,
com raras exceções. E nesse caso é bom que cada um faça o seu exame
de consciência, avaliando que tipo de sentimentos permite que se responsabilizem
por cada decisão.
Mas, voltando à negociação, ela só rende frutos quando é reconhecida
a força e o poder de ambos os negociadores. E aí entram as parcerias,
as instituições apoiadoras. Sozinho, escorado apenas num bom discurso,
ninguém faz valer as suas idéias, ainda que razoáveis.
O prazer da polêmica atrapalha a concretização dos projetos. Troque-se
a polêmica pela negociação e a conseqüente realização, para ver no que
dá. Acredite-se, até prova em contrário, que algo bom pode sair de outras
cabeças. E, sempre que isso acontecer, que a nossa tenha a humildade
e a luz necessária para apoiar e aplaudir.
Para ver outras crônicas da autora, acesse
www.martasousacosta.blogspot.com
|
|