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Por Marta de Sousa Costa
>>> Rusticidade e conforto
A amiga perguntou se, no fundo do baú de onde retiro lembranças, não
havia um rancho de torrão, como aqueles que antigamente povoavam as
estâncias. Procurando, encontrei não um, mas vários ranchos, cada um
com a sua história.
Num tempo em que, no interior do Rio Grande do Sul, havia carência de
material de construção, os ranchos, usualmente moradia das famílias
dos peões, eram construídos com blocos maciços de terra vegetal e capim,
sobrepostos. Lançadas com força umas sobre as outras, com a compressão
as leivas se aglutinavam, como que cimentadas.
A cobertura do rancho era de palha santa-fé, costurada com arame fino
sobre uma armação de madeira. Um homem ficava embaixo e o outro sobre
a armação, colocando os feixes de palha e trespassando-os com o arame,
para fixá-los, conforme o arame (colocado na agulha apropriada, presa
a um bambu) era reenviado pelo que estava no solo _ operação que, por
utilizar arame de quincha, chamava-se "quinchar".
Após algum tempo, o capim e as raízes secavam, fazendo com que, pelo
material usado, os ranchos possuíssem bom isolamento acústico e térmico,
sendo frescos no verão e quentes no inverno.
As janelas, em geral, possuíam somente postigos, mas, de acordo com
o capricho dos proprietários, algumas ganhavam vidros e até cortinas
curtas em algodão floreado.Muitos, inclusive, caiavam as paredes internas
e externas.
Os cômodos costumavam se dividir em um ou dois quartos e uma ampla cozinha,
ponto de reunião da família. Como o banheiro costumava ser uma casinha
de madeira, afastada da casa, os banhos aconteciam também na cozinha,
numa bacia de louça ágata, onde era colocada a água quente, retirada
da chaleira de ferro sempre sobre o fogão a lenha.
No início da década de 70, meu sogro começou a construção de casas de
alvenaria para os empregados, em substituição aos poucos ranchos ainda
existentes, obedecendo sempre à mesma planta: sala, 2 ou 3 quartos,
cozinha, banheiro e um tanque coberto, à saída da cozinha.
Minha sogra e eu acompanhávamos com grande entusiasmo a construção da
moradia de um posteiro, funcionário antigo. Quando ficou pronta, fomos
visitá-la, esperando encontrar a dona da casa feliz e sorridente. Para
nossa surpresa, ela se declarou aborrecida com a perspectiva de ter
que passar a lavar o chão de ladrilhos vermelhos. "Antes, era só
baldear e pronto" _ explicou, referindo-se ao sistema de jogar
água sobre o piso, por ser de terra batida. Passado o desencanto, tivemos
que rir, por compreender que a noção de conforto varia de pessoa para
pessoa. Jamais imagináramos que alguém pudesse não apreciar banheiro
e cozinha com água encanada, além de uma salinha gostosa para reunir
a família.
Aos poucos, os ranchos de torrão desapareceram da paisagem gaúcha, substituídos
pelas "casas de material". Sem o aconchego do fogão a lenha,
trocado pelo fogão a gás, as famílias passaram a se reunir em frente
à televisão e as antenas sobre o telhado se transformaram em símbolo
social. O campo entrou na modernidade e novos sonhos de consumo se transformaram
em necessidades imprescindíveis.
Para ver outras crônicas da autora, acesse
www.martasousacosta.blogspot.com
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