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Por Marta de Sousa Costa
>>> Do bem e do mal
As notícias lidas e ouvidas, diariamente, são tão perturbadoras, que
a vontade é ignorar esse mundo insano: nos jornais, só ler as tiras
cômicas, as crônicas sociais e as páginas literárias; na TV, preferir
o Mundo Animal, onde a perversidade gratuita raramente se manifesta.
Contudo, ainda que fizéssemos isso, não estaríamos a salvo do mal.
No livro "Mentes Perigosas", a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa
Silva alerta para o "psicopata que mora ao lado", na forma
de pessoas que, convivendo conosco, com aparência comum, sem sinais
exteriores de anormalidade, são especialistas em causar o mal, sem a
menor empatia com o sofrimento desencadeado por suas ações. Muitas delas,
ainda que não se enquadrem naqueles casos passíveis de punição pela
justiça humana, são capazes de destruir famílias, empresas e vidas,
pela manipulação dos sentimentos e das situações.
Ela cita exemplos: o namorado que se faz de apaixonado, para dar o golpe
e desaparecer, assim que põe a mão no dinheiro "emprestado";
a "amiga" que se instala no apartamento de outra, usufrui
de tudo e ainda se dá ares de coitadinha, incapaz de conseguir emprego;
o executivo que finge auxiliar o superior e termina ficando com o cargo
dele, por meio de artimanhas; a funcionária que parece caída do céu,
ao se candidatar ao emprego, preenchendo todos os requisitos, ao ponto
de a patroa julgar desnecessárias as referencias; o homem que bate na
mulher, pede perdão e bate novamente, alegando amor e ciúmes; os familiares,
religiosos, professores e profissionais que se aproveitam da vulnerabilidade
de crianças e jovens; os políticos desonestos e todos que ocupam cargos
em instituições, com a intenção de se beneficiar. Quando essas situações
se repetem, sem despertar o menor remorso, elas caracterizam pessoas
"do mal", incorrigíveis, tipos que precisamos aprender a reconhecer
e evitar, para não ser a próxima vítima. Porque, quando a escritora
fala que "eles moram ao lado", ela quer dizer que podemos
encontrá-los a qualquer momento, tê-los junto a nós, lançando sua teia,
pelo fato de, sendo mentirosos, sem sentimentos, manipuladores, também
serem encantadores, inteligentes e bom papo. Sem essas características,
não atingiriam seus objetivos facilmente, como em geral acontece.
Temos dificuldade em reconhecer o mal no outro; procuramos desculpas
para as atitudes que nos chocam ou desagradam. Comumente pensamos que
devemos ser culpados, de alguma forma, o que é o maior equívoco.
Qualquer pessoa pode errar uma e muitas vezes, mas gente "do bem"
sabe quando agiu mal, reconhece o erro, procura saná-lo. Gente "do
bem" não vive de se locupletar à custa dos outros, nem de difamá-los
para tirar vantagem.
Pessoas "do mal", alerta a psiquiatra, são como o escorpião
da história, que, ao se encontrar a salvo do outro lado do rio, não
resistiu e picou o sapo que lhe dera carona na travessia. "Por
quê?" _ perguntou o sapo bonzinho, atônito, enquanto submergia.
"Porque é da minha natureza"_ respondeu o escorpião, com a
mesma naturalidade com que alguns se expõem, quando certos de que os
outros não reagirão.
Estudos afirmam que cerca de 96% das pessoas são "razoavelmente
decentes e capazes de bons sentimentos". Sendo isso verdade, como
podem os malfeitos da minoria de 4% prevalecerem nas manchetes diárias?
Será que o grande espaço ocupado pelos pilantras, aproveitadores, ladrões
e mentirosos contumazes não se deve ao comodismo dos outros, que cedem
lugar, preferindo se encolher que tomar atitudes de enfrentamento, ao
perceber o descaramento e a falta de escrúpulos?
Para ver outras crônicas da autora, acesse
www.martasousacosta.blogspot.com
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