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Por Marta de Sousa Costa
>>> É isso ou baixar a cabeça
Durante os Jogos Olímpicos, para demonstrar ao mundo a
boa vontade na promoção da liberdade de pensamento, as autoridades
chinesas resolveram liberar três locais como zonas oficiais de protesto.
Por se tratar de um país onde até a internet é fiscalizada,
naturalmente a abertura causou expectativa.
Contudo, para surpresa geral, as três zonas oficiais chegaram ao
final dos Jogos sem abrigar um protesto sequer. Para começar, na
maior população mundial, apenas 77 pessoas ousaram encaminhar
à polícia o pedido de autorização.
Duas senhoras amigas, uma de 77, a outra de 79 anos, registraram cinco
pedidos consecutivos para ter a oportunidade de protestar, nos parques
designados. Ambas desejavam compensações das autoridades
pela demolição arbitrária de suas casas, em razão
da remodelação de Pequim para os Jogos Olímpicos.
Foram condenadas a um ano de trabalhos forçados nos “campos
de reeducação” chineses, transformados em prisão
domiciliar, em razão da idade. Se não se aquietarem, seu
destino será mesmo um dos campos de reeducação, segundo
depoimento do filho da mais velha.
Estrangeiros também foram presos, por protestar contra o domínio
do Tibete. Fotógrafos e correspondentes estrangeiros que cobriam
as manifestações foram detidos e interrogados. Na China,
prisão administrativa e envio a campos de reeducação
podem ser determinados pelo governo, sem necessidade de intervenção
do Poder Judiciário.
O que temos nós a ver com isso? – poderá alguém
pensar, refestelado em sua poltrona, neste Brasil que desejamos democrático.
Quando as barbas do outro ardem, os previdentes colocam as suas de molho.
Porque as situações não mudam de um instante para
o outro, num piscar distraído dos olhos.
Elas mudam devagar, de um jeito quase despercebido. Alguns mais atentos
se dão conta, mas os outros costumam chamá-los de chatos,
impertinentes, fanáticos, por isso a maioria se cala e fica torcendo
para não ter razão no seu medo e desconfiança.
Começa, em geral, pelo desarmamento, porque uma população
sem armas não tem a mínima capacidade de reação
e defesa. Nesse sentido, são realizadas campanhas “educativas”,
no intuito de convencer as pessoas do benefício de espontaneamente
se desfazerem das armas em sua posse. Quando os objetivos não são
atingidos em sua plenitude, - como aconteceu no Brasil, quando o plebiscito
disse “não” ao desarmamento obrigatório –
outras medidas são tomadas, visando dificultar ao máximo
o porte de armas. Por comodismo ou dinheiro escasso para fazer frente
às despesas com o registro e o porte, outros tantos desistem.
O próximo passo é o cerceamento da imprensa, pelo controle
das notícias que podem ser divulgadas.
Enquanto isso, de forma sistemática e sorrateira, toda autoridade
é colocada em ridículo e questionada. Família, escola,
judiciário, polícia civil e militar são alvos de
crítica e desrespeito. Sem valores, as pessoas se sentem perdidas,
sem saber a quem apelar, nos momentos de crise.
A China, em seu processo de abertura, tem um longo caminho pela frente.
No Brasil, ainda que muitas situações não cheguem
ao nosso conhecimento, pelo menos a imprensa não teve sua atuação
controlada, como foi pretendido. Da mesma forma, vozes corajosas reagem,
aqui e ali, em defesa dos nossos direitos. Cabe a nós, cidadãos
comuns, buscar as informações e fazer coro com os protestos
justificados, fortalecendo as idéias que julgarmos dignas. É
isso ou baixar a cabeça, esperando pra ver no que vai dar.
Marta Fernandes de Sousa Costa
Para ver outras crônicas da autora, acesse
www.martasousacosta.blogspot.com
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